Nietzsche afirma a ideia do eterno retorno, ou seja, que todos os acontecimentos da vida de cada um, e da história da humanidade, irão se repetir inúmeras vezes; Milan Kundera nega esta ideia, dizendo que o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, e que a ausência total de fardo faz com que os movimentos humanos sejam tão livres quanto insignificantes. O que escolher? O peso ou a leveza? Este é o tema central do romance. Através da história de dois casais, Tomas e Tereza, e Franz e Sabina, ele mostra que todas as nossas ações não têm sentido, exatamente porque nossas ações não se repetem, e nossa vida não acontece senão uma vez. Isso confere leveza à nossa existência; nossos atos são leves porque suas consequências não importam; são insignificantes.
Tomas e Tereza são impelidos um ao outro por uma série de acasos, e estão condenados a viver juntos, embora causando um ao outro grande dor. Tereza deseja libertar-se da invasão de sua privacidade simbolizada pela mãe, pelas limitações de sua vida, e encontra em Tomas os sinais do acaso ou destino. Ela acredita que somente o acaso tem voz; o que acontece todos os dias, e se repete, não é senão uma coisa muda. Os sinais que a ligaram a Tomas significavam para ela outro mundo ao qual desejava pertencer, para escapar de sua vida sem sentido.
Sabina, pintora tcheca e uma das inúmeras amantes de Tomas, também deseja fugir das limitações de sua vida, e encontra na traição o meio de se libertar. Somente traindo ela pode, ao negar, escolher outro caminho. Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido.
Franz é um idealista acredita que uma Grande Marcha da história irá levar a humanidade para frente. Franz achava sua vida irreal, e desejava a vida “real” das revoluções, marchas e desfiles. Sabina representa, para ele, o ideal, simbolizado pela resistência de seu país ao domínio russo, consequentemente, representa seu ideal feminino. Quando ela o abandona, ele toma coragem para mudar sua vida, mas tudo que faz é para os olhos de Sabina. Kundera mostra a futilidade dessas ações idealistas, especialmente no capítulo “A Grande Marcha”, onde vemos Franz em uma passeata na fronteira do Camboja, onde as ações idealistas não significam nada, pois é apenas palco para a vaidade humana, e não alteram o curso dos acontecimentos.
Todas essas vidas, unidas por acasos, simbolismos, e palavras incompreendidas, têm uma insustentável leveza, pois seja qual for a decisão que tomemos, só se tem uma vida e não se pode compará-la com as vidas anteriores nem corrigir uma decisão errada em outra vida
Negando Nietzsche, Kundera afirma que a vida não tem sentido, pois “não poder viver senão uma vida é como não viver nunca”. Este é um romance sobre relacionamentos, mas que levanta questões filosóficas: será que a vida tem sentido? Ou será o niilismo defendido por Kundera a solução? Analisando o comportamento de seus personagens, ele levanta tais questões e deixa ao leitor a decisão final; afinal, ele mesmo defende que, qualquer que seja esta decisão, terá a leveza insustentável do ser. O peso da vida leve que Kundera define não é, de fato, fácil de carregar.
“Procuramos sempre o peso das responsabilidades,
quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade.”
- Milan Kundera -
Fonte:
KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. São Paulo:
Companhia de Bolso. 1 ed. 2008.

