sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Insustentável Leveza do Ser (Milan Kundera)


Nietzsche afirma a ideia do eterno retorno, ou seja, que todos os acontecimentos da vida de cada um, e da história da humanidade, irão se repetir inúmeras vezes; Milan Kundera nega esta ideia, dizendo que o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, e que a ausência total de fardo faz com que os movimentos humanos sejam tão livres quanto insignificantes. O que escolher? O peso ou a leveza? Este é o tema central do romance. Através da história de dois casais, Tomas e Tereza, e Franz e Sabina, ele mostra que todas as nossas ações não têm sentido, exatamente porque nossas ações não se repetem, e nossa vida não acontece senão uma vez. Isso confere leveza à nossa existência; nossos atos são leves porque suas consequências não importam; são insignificantes.
Tomas e Tereza são impelidos um ao outro por uma série de acasos, e estão condenados a viver juntos, embora causando um ao outro grande dor. Tereza deseja libertar-se da invasão de sua privacidade simbolizada pela mãe, pelas limitações de sua vida, e encontra em Tomas os sinais do acaso ou destino. Ela acredita que somente o acaso tem voz; o que acontece todos os dias, e se repete, não é senão uma coisa muda. Os sinais que a ligaram a Tomas significavam para ela outro mundo ao qual desejava pertencer, para escapar de sua vida sem sentido.
Sabina, pintora tcheca e uma das inúmeras amantes de Tomas, também deseja fugir das limitações de sua vida, e encontra na traição o meio de se libertar. Somente traindo ela pode, ao negar, escolher outro caminho. Trair é sair da ordem. Trair é sair da ordem e partir para o desconhecido. Sabina não conhece nada mais belo que partir para o desconhecido.
Franz é um idealista acredita que uma Grande Marcha da história irá levar a humanidade para frente. Franz achava sua vida irreal, e desejava a vida “real” das revoluções, marchas e desfiles. Sabina representa, para ele, o ideal, simbolizado pela resistência de seu país ao domínio russo, consequentemente, representa seu ideal feminino. Quando ela o abandona, ele toma coragem para mudar sua vida, mas tudo que faz é para os olhos de Sabina. Kundera mostra a futilidade dessas ações idealistas, especialmente no capítulo “A Grande Marcha”, onde vemos Franz em uma passeata na fronteira do Camboja, onde as ações idealistas não significam nada, pois é apenas palco para a vaidade humana, e não alteram o curso dos acontecimentos.
Todas essas vidas, unidas por acasos, simbolismos, e palavras incompreendidas, têm uma insustentável leveza, pois seja qual for a decisão que tomemos, só se tem uma vida e não se pode compará-la com as vidas anteriores nem corrigir uma decisão errada em outra vida
Negando Nietzsche, Kundera afirma que a vida não tem sentido, pois “não poder viver senão uma vida é como não viver nunca”. Este é um romance sobre relacionamentos, mas que levanta questões filosóficas: será que a vida tem sentido? Ou será o niilismo defendido por Kundera a solução? Analisando o comportamento de seus personagens, ele levanta tais questões e deixa ao leitor a decisão final; afinal, ele mesmo defende que, qualquer que seja esta decisão, terá a leveza insustentável do ser. O peso da vida leve que Kundera define não é, de fato, fácil de carregar.

“Procuramos sempre o peso das responsabilidades,
quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade.”

- Milan Kundera - 



Fonte:
KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. São Paulo: Companhia de Bolso. 1 ed. 2008.



Nós Precisamos Falar Sobre Kevin (2011)


Eva Khatchadourian (Tilda Swinton) é uma mãe que se esforça para amar seu filho Kevin (Jasper Newell / Ezra Miller), uma criança estranha, apesar das atitudes cada vez mais cruéis e problemáticas que ele tem com o passar do tempo. Porém, Kevin, está apenas começando, e o desfecho da história está além do imaginável no início do filme.
O filme remonta às buscas psicológicas que são feitas sempre que algum tipo de tragédia ou massacre ocorre, como o famoso massacre de Columbine, ou ainda o recente episódio em Realengo/RJ, para tentar entender o motivo do que aconteceu. Vasculha-se o passado do responsável procurando episódios que justifiquem o ato, como maus tratos, bullying, ou qualquer tipo de trauma. O que explicar quando essa justificativa simplesmente não existe?
O filme se inicia já transmitindo uma sensação de que o fim traz algo de errado, muito errado. Uma cena inicial tensa, que mostra um grupo de pessoas em meio a um líquido vermelho, introduz à vida de Eva (papel pelo qual Tilda Swinton foi indicado ao Oscar em 2012), contada através de idas e vindas no espaço de tempo, para permitir entender o presente e passado. Eva é agora mal vista na sociedade em que vive, maltratada e humilhada por quase todos que passam por ela. Em um passado remoto teve uma vida feliz ao lado do marido Franklin (John C. Reilly), porém entende-se que algo muito grave ocorreu entre essas duas épocas: Kevin, o primeiro filho do casal.
Kevin, precocemente se mostra uma criança puramente má, especialmente com a mãe, que desenvolve uma frustração e desespero com o fato, que se torna temor com o passar do tempo. Percebem-se em Eva sentimentos conflituosos, uma vez que ela se sente responsável pela personalidade controversa do filho, culpando-se por tê-lo criado assim. Esse relacionamento é marcado por cenas incríveis, como a cena em que Eva, com Kevin, recém-nascido, chorando no carrinho, para ao lado de uma britadeira e sente-se aliviada por ter o som do choro da criança encoberto pelo barulho da máquina; e também por cenas que retratam a esperança da mãe em ser aceita pelo filho, e a constatação de que ele, de fato a odeia.
A diretora, Lynne Ramsay, manipula as informações dadas ao espectador para que as peças se encaixem aos poucos, trazendo sempre a sensação de estranhamento às novidades apresentadas. O filme torna-se assim duro e impactante, pois, os atos de Kevin, por mais que sejam facilmente previsíveis, sempre surpreendem, pelo nível de crueldade e maldade com que se apresentam. Não existe justificativa, há apenas o prazer sem compromisso em ver o sofrimento, psicológico principalmente, da mãe. A simplicidade torna tudo ainda mais assustador.
Grande destaque para a interpretação dos atores que fazem Kevin quando criança e quando adolescente, que permitem identificar no olhar o cinismo da personagem.
O enfoque de discussão sobre o filme pode ser dado de diversas maneiras e visões diferentes. Pode-se, finalmente, avaliar qual o nível de responsabilidade sobre o desfecho daqueles envolvidos na criação e formação da personalidade de Kevin. Pode-se avaliar quanto disso é dado pelo ambiente familiar em que a criança se desenvolve.
O filme traz reflexão, não apenas pela história em si, mas pela inexistência de um motivo exato para o desfecho, seja ele qual for, e pela constatação de que a mente humana, capaz de muitas vezes produzir maravilhas, é também capazes das mais frias atrocidades.



Fonte:
PrecisamosFalar Sobre Kevin (Filme). We need to talk about Kevin (título original). Lynne Ramsey, 2011. 112min. color. 

Trailer:


Apresentação


Olá!

Criamos esse blog com o intuito de compartilhar material e textos diversos que produzirmos ou que acharmos relevante durante o curso de Letras - FAAT (2012-2014).

É interessante perceber o quanto o material disponibilizado na internet, em blogs, ajuda no momento de montar trabalhos, textos, ou mesmo estudar assuntos para a sala de aula.

O objetivo geral é usar esse blog como depósito de material, oriundo de fontes confiáveis e bibliografia comprovável.

Esperamos que esse material possa ajudar acadêmicos de diversas áreas e ainda sanar a curiosidade de leitores interessados em assuntos de educação, língua portuguesa e produção textual.

Obrigado, e sejam bem-vindos!