Eva Khatchadourian (Tilda Swinton) é uma mãe que se esforça para amar seu filho Kevin (Jasper Newell / Ezra Miller), uma criança estranha, apesar das atitudes cada vez mais cruéis e problemáticas que ele tem com o passar do tempo. Porém, Kevin, está apenas começando, e o desfecho da história está além do imaginável no início do filme.
O filme remonta às buscas psicológicas que são feitas sempre que algum tipo de tragédia ou massacre ocorre, como o famoso massacre de Columbine, ou ainda o recente episódio em Realengo/RJ, para tentar entender o motivo do que aconteceu. Vasculha-se o passado do responsável procurando episódios que justifiquem o ato, como maus tratos, bullying, ou qualquer tipo de trauma. O que explicar quando essa justificativa simplesmente não existe?
O filme se inicia já transmitindo uma sensação de que o fim traz algo de errado, muito errado. Uma cena inicial tensa, que mostra um grupo de pessoas em meio a um líquido vermelho, introduz à vida de Eva (papel pelo qual Tilda Swinton foi indicado ao Oscar em 2012), contada através de idas e vindas no espaço de tempo, para permitir entender o presente e passado. Eva é agora mal vista na sociedade em que vive, maltratada e humilhada por quase todos que passam por ela. Em um passado remoto teve uma vida feliz ao lado do marido Franklin (John C. Reilly), porém entende-se que algo muito grave ocorreu entre essas duas épocas: Kevin, o primeiro filho do casal.
Kevin, precocemente se mostra uma criança puramente má, especialmente com a mãe, que desenvolve uma frustração e desespero com o fato, que se torna temor com o passar do tempo. Percebem-se em Eva sentimentos conflituosos, uma vez que ela se sente responsável pela personalidade controversa do filho, culpando-se por tê-lo criado assim. Esse relacionamento é marcado por cenas incríveis, como a cena em que Eva, com Kevin, recém-nascido, chorando no carrinho, para ao lado de uma britadeira e sente-se aliviada por ter o som do choro da criança encoberto pelo barulho da máquina; e também por cenas que retratam a esperança da mãe em ser aceita pelo filho, e a constatação de que ele, de fato a odeia.
A diretora, Lynne Ramsay, manipula as informações dadas ao espectador para que as peças se encaixem aos poucos, trazendo sempre a sensação de estranhamento às novidades apresentadas. O filme torna-se assim duro e impactante, pois, os atos de Kevin, por mais que sejam facilmente previsíveis, sempre surpreendem, pelo nível de crueldade e maldade com que se apresentam. Não existe justificativa, há apenas o prazer sem compromisso em ver o sofrimento, psicológico principalmente, da mãe. A simplicidade torna tudo ainda mais assustador.
Grande destaque para a interpretação dos atores que fazem Kevin quando criança e quando adolescente, que permitem identificar no olhar o cinismo da personagem.
O enfoque de discussão sobre o filme pode ser dado de diversas maneiras e visões diferentes. Pode-se, finalmente, avaliar qual o nível de responsabilidade sobre o desfecho daqueles envolvidos na criação e formação da personalidade de Kevin. Pode-se avaliar quanto disso é dado pelo ambiente familiar em que a criança se desenvolve.
O filme traz reflexão, não apenas pela história em si, mas pela inexistência de um motivo exato para o desfecho, seja ele qual for, e pela constatação de que a mente humana, capaz de muitas vezes produzir maravilhas, é também capazes das mais frias atrocidades.
Fonte:
PrecisamosFalar Sobre Kevin (Filme). We need to talk about Kevin (título original). Lynne Ramsey, 2011. 112min. color.
Trailer:

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